6.1.17

A raiz da bondade



Às vezes, as expectativas que tínhamos em relação a outras pessoas não eram, realmente, em relação a elas, mas a nós mesmos.
Como em: "Se fulano fizer isto e aquilo, eu poderei (preencha com o que você quiser).
Como em: "Se fulana (for, fizer, falar, me der), eu me sentirei (feliz, gratificado, recompensado, liberto, vingado).
Todo comportamento voltado para o outro é, de fato, um ato egoista.
Visa aumentar nosso amor próprio. Perpetuar nosso bem-estar. Prolongar nossa satisfação. Nos liberar de obrigações.
Nenhum ato de caridade é gratuito.
Nenhum.
Sempre há a expectativa de alegrar ou ajudar alguém, obviamente, mas a razão vai mais além. Fazemos o bem na esperança de que o ato gere réplica, alcance outras pessoas (não necessariamente aquela que ajudou), como em uma corrente. Fazemos o bem esperando, no mínimo, gratidão (não recompensa monetária, se não foi estipulado que haveria a devolução). No mínimo, um resultado que nos faça pensar: "Valeu a pena".
Quando se faz o bem, o que menos importa é a devolução, mas gratidão é de graça.
Gratidão significa: espalhar a bondade. Cumprir o prometido (ou se esforçar), utilizar o que se recebeu (um gesto, um valor, uma atitude, um conselho) para melhorar nossa alma, não nosso bolso.
Então: não há doação sem expectativa.
Me desculpem, mas não há.
Há, no mínimo, a expectativa de fazer alguém feliz - e se isto ocorre, nós também ficamos felizes, o que é o maior "egoismo", francamente, o dar para receber.
;-)

31.12.16

(Ao som de "Wild World")

Te dei minhas asas para que aprendesses a voar.
Te dei minhas asas para que teus voos fossem mais longos, mais altos e mais perfeitos que os meus, sempre em zigue-zague, nunca tão altos, nunca tão longos.
Fui embelezando as plumas, ajeitando  as condições, reformando e refazendo tudo para que pudesses ver o mundo do alto.
Só não contava que, ao te dar minhas asas, eu fosse ficar presa à terra.
Achei que tu, pássaro mais forte e mais jovem, me levarias junto de vez em quando em tua recém-conquistada liberdade.
Achei que me verias lá de cima e pegarias minhas mãos levantadas ao ar, à espera do passeio.
Eu não contava com ganhares as minhas asas e descobrires que elas servem para nunca mais voltar.
Para abandonar o ninho e esquecer que, afinal, as asas ainda não são tuas. Que eram apenas emprestadas, como só quem ama poderia fazer por ti.
Logo, talvez descubras que as asas talvez não sejam do tamanho ideal. Que, no alto, também há predadores. Que, lá em cima, a chuva também cai e ventos fortes podem te derrubar. Que, quase alcançando as nuvens, ao olhares para baixo também há coisas feias e que não é possível pairar eternamente.
Quando pousares, estarei aqui.
Sempre.

28.12.16






Dentro de casa faz 32 graus, antes de eu me refugiar no ar condicionado para trabalhar.

Sem mais nem menos, sentindo o bafo pegajoso do calor, lembro de minha vovó por parte de mãe, a Dona Norma, que faleceu mais de vinte anos atrás por um motivo bobo (escorregou em um degrau pequenino, quebrou a bacia e nunca mais se recuperou).
Minha infância:
Pegar dois ônibus no verão tórrido com minha mãe e meus irmãos para ir visitá-la em Novo Hamburgo.
Descer do ônibus às vezes no meio do caminho para comprar remédio antienjoo pra mim, que tinha pavor do balanço do ônibus.
Ir sofrendo até lá, apenas para, ao chegar naquele chalé muito pequenino de madeira simples, encontrar a familharada toda já lá, espremida em volta da mesa com cadeiras que, exceto por uma cristaleira pequena e um balcão (de onde eu retirava livros policiais do meu avô pra ler e não morrer de tédio), era só o que cabia na sala muito pequenina, sem TV, sem sofá, sem abajur, sem conforto.
Durante o café fervendo e os bolos, pães, cucas, as tias fofocavam e as vozes iam se elevando em alegres histórias e risadas, muitas risadas.
Minha vovó (nunca a chamei de vó, só "vovó") não parava. Praticamente não sentava.
Da sala, ia para a minúscula cozinha pegar mais isto e mais aquilo, voltava à mesa e repetia, inúmeras vezes: "Mais café?" E eu tinha de botar a mão sobre a xícara para impedi-la de me servir mais.
O calor naquela sala era lendário, indizível, impossível, mas por carinho e consideração umas pelas outras, as irmãs da minha mãe faziam de conta que não o sentiam.
Eu, que já não gostava de bolo ou cuca, em pouco tempo me satisfazia e, já que as vozes femininas agudas e altas me deixavam cansada e o calor parecia que iria me consumir e assar, me refugiava na também pequena área coberta nos fundos, onde, em torno de uma mesinha apertada, meu vovô e seu irmão (meu tio-avô que me intimidava) e às vezes um ou dois tios, jogavam cartas e quase sempre escutavam futebol no radinho de pilha. Meu vovô me dava uma piscadinha, cúmplice da minha escapada, e eu ficava ali, lendo Ellery Queen e sentindo o cheiro do cigarro "Tufuma" sem filtro do meu avô.
Minha vovó não tinha absolutamente nenhum luxo e não os desejava. Praticamente no fim da sua vida, já sem meu vovô, ganhou um televisor. Nunca teve máquina de lavar (lavava roupa para fora, no "muque" mesmo), nem ventilador, ao que me conste. Suas roupas eram vestidinho retos, floreadinhos e com botões pequenos. Sempre o mesmo modelinho, com um casaquinho no inverno.
Era uma pisciana das mais típicas - generosa, mas mortalmente azeda e mal-humorada com crianças barulhentas e invasões na sua vidinha.
Acredito que aquelas visitas à minha vovó na infância moldaram meu pavor a ambientes abafados, lotados e com conversas altas, rápidas e confusas.
Mas a lembrança fica, com amor pela vó que por menos dinheiro que tivesse sempre dava um jeito de receber bem e me presentear em Natal, Páscoa e aniversário, e pelo vovô com cheiro de cigarro, de olhos verdes aguados que me chamava de "bonecra" e pelo qual - confesso - eu era apaixonada, já que foi o primeiro homem que me amou com cumplicidade, gestos e palavras (meu pai não demonstrava amor).

27.12.16

Back

 

Por um pouco mais que cinco anos eu abandonei este blog.
 Não sei dizer por que. 
Minha mãe faleceu, a vida nunca mais foi a mesma, mas não quer dizer que tenha sido ruim, neste período de cinco anos, só não foi a mesma.
Em cinco anos, aconteceram mais coisas na minha vida do que (exceto pelo ano em que minha mamãe faleceu) nos cinco anos anteriores, de 2005 a 2010.
Talvez eu tenha vivido mais para fora de mim mesma, não tanto nesta minha redoma de letras, sentimentos e emoções.
Talvez eu não tenha tido tempo. 
Não - eu sei que algum tempo eu tive, eu sei que escrevi algumas coisas no Facebook, mas por algum motivo, um desgosto com as dores até 2011, considerei este blog aqui morto.
Mas 2012 foi muito difícil, minha vida continuou muito ocupada com problemas (dos outros, refletindo em mim) em 2013, em 2014 não sei por que não escrevi e em 2015 havia uma ferida aberta nos meus sentimentos. Era melhor nem ter onde mostrá-la, não tocá-la, não vê-la, fugir.
De repente, me vejo disposta a recomeçar.
Em muita coisa, não apenas no blog.
Não há feridas, não há entraves, não há bloqueios.
Aqui é onde me solto e escrevo coisas que não escreveria no Face.
Aqui é onde eu não tenho barreiras.
Escrevo não para ter fãs. Não para ter um grande número de seguidores. Não para "causar".
Escrevo porque é o que faço.
No Face, eu falo com pessoas.
Aqui, eu falo comigo mesma.
Se olhos me bisbilhotarem, é consequência de eu escrever aqui e não me importo, mas escrevo porque é o jeito que tenho de esclarecer minha mente. Escrevo porque é meu modo principal de comunicação.

Vamos lá.
 

16.8.11

Olhar apenas para nosso próprio umbigo nos deixa míopes. Olhe para os outros, mais e menos próximos, e sua visão humana continuará aguçada.
Pense em ajudar alguém. Não apenas pense. Faça. Seus problemas desaparecerão como por encanto. Como bônus, você recebe créditos em bondade para a sua vida (acredito realmente nisto).

A morte não existe.
O que existe é apenas uma distância maior entre nós e aqueles que amamos.
E uma espera sem tempo marcado (até onde saibamos) pelo reencontro.

17.6.11

Diário de uma mulher comum - XVII

Ontem à noite, por um breve momento, talvez 10 segundos ou nem isso, eu tive a certeza de que o olhar da minha mãe estava sobre mim.
De repente, sem mais nem menos, no meio de preparativos para ir dormir e outras rotinas automáticas, minha mente (ou coração?) foi invadida por uma só sensação, impossível de descrever em palavras, mas foi como se uma enchente de amor pairasse sobre mim, e assim, subitamente, me vieram lágrimas aos olhos e falei, reconhecendo aquela sensação: "Eu sou muito amada".
Desculpem-me, cínicos de plantão, descrentes ou aqueles que acham que a vida é só rarará, risinhos e besteirol e que tocar nesses assuntos é "coisa de louco".
Preciso avisar que, embora eu não goste de tocar muito neste assunto para não sofrer preconceito, eu sou sensitiva desde que me entendo por gente e, de vez em quando, preciso confiar na minha intuição e mediunidade.
Exatamente por já ter tido ("sofrido"?) incontáveis experiências e por usar minhas "antenas" todos os dias, para as mínimas coisas, sei diferenciar uma ilusão de uma sensação real de contato.
Logo depois que minha mãe faleceu, eu senti diversas vezes, durante uns três dias, alguém passando a mão por minhas costas devagar, como quem consola. Uma ajuda amiga, que me fazia correr minha própria mão por minhas costas ao sentir isso, até onde meu braço permitisse, para ver se não havia uma etiqueta de roupa, um fio de cabelo, um inseto, algo assim, causando a sensação de toque consolador.
Eu já não choro mais todos os dias. Mesmo porque eu preciso é viver e cuidar de mim - e mesmo porque eu evito recordar, porque isso traz muito sofrimento.
E então, quando estou vivendo normalmente, me sinto amada intensamente, por breves instantes.
Assim como veio, passou.
Mas o sono foi embora, o choro veio de novo e no meio da noite, quando eu já caía no sono, fui despertada por um forte cheiro de injeção, de remédio, quando não há a menor possibilidade de existir tal odor na minha casa inteira, menos ainda no meu quarto.
Assim, levantei, acendi a luz, ainda procurei a origem do cheiro, não encontrei e, finalmente, falei para mim mesma: "Let it be".
Deitei-me novamente com a TV ligada baixinho, acomodei-me na minha posição de dormir só escutando a TV (porque fica para o lado contrário daquele em que durmo) e em menos de cinco minutos já estava apagada.
Dormi menos que em muitas noites e acordei sem despertador às cinco e meia. Totalmente repousada.
Obrigada, anjos e amigos do outro lado.
E ao carinho de mãe, que nunca abandona os filhos.

16.6.11

Sarah Bareilles, "Gravity"



Este é o tipo de música que me faz querer me apaixonar novamente. E, mesmo sem estar apaixonada, é "como se", ao escutá-la. Inspiradora.

15.6.11

Três semanas de vida, dentinhos quase nascendo



Essa coisinha fofa é um dos cinco lindos siameses que minha Nyx teve.
Ela estava com seis para sete meses, eu planejava castrá-la dali a alguns dias, quando entrou no cio pela primeira vez e passou a noite fora. Na manhã seguinte, quando eu, desesperada, peguei a bicicleta para procurá-la pelo bairro, assim que saí pelo portão ela cruzou a rua a toda velocidade, com um belíssimo siamês em seu encalço. Ela entrou em casa, o siamês voltou para o seu canto.

Resumo da ópera: minha Nyx entrou no cio e conseguiu encontrar logo um siamês, que lhe deu cinco lindíssimos e saudáveis filhotinhos.

Minha vontade é ficar com todos eles, mas obviamente, não pretendo virar aquelas loucas que têm 10 gatos em casa (embora o pátio seja grande e eu pudesse tê-los). Já estão todos dados, menos um, que minha filha escolheu. Mas minha paixão é esse aí da foto, um machinho que sempre que me vê já vem correndinho para o meu lado.

Um motivo adicional para não ficar com todos: já tenho a Nyx, o Kinim e a Lana...Agora a Nyx vai entrar na castração, como o Kinim e a Lana. Por mais belos que sejam os filhotes, a cada parto eu tenho de lavar e lavar e lavar cobertores... (a Nyx é caprichosa, e eu também).

Minhas coisinhas mais fofas (literalmente)

7:15h, bom dia em Eldorado do Sul

23.5.11

Para que servem as tias?

Para nos dar amor infinito quando perdemos a mãe.
Eu não conhecia a beleza desse tipo de amor, até minha mãe cruzar para o outro lado.
Coisas fofas.

21.5.11

... A gente faz bem em escolher com que vai se magoar, porque se não escolher, fica difícil viver.
Foto: uma calçada na Jerônimo de Ornellas, Porto Alegre. Crédito: Dayse Batista
Uma coisa injusta (não só comigo, como com qualquer pessoa): alguém interpretar - incorretamente - o que escrevo e, quando eu explico o que escrevi, a pessoa magoar-se.

Então, o desejo parece ser apenas o de fazer valer sua opinião.

Triste, isso.