5.4.17

Breve Biografia Tosca




Dela dirão, um dia, que foi a moderna escrava de classe média. Que obrava como um Jó, mas era dura de dar dó e se iludia que isso era apenas um estado passageiro - tanto a penúria quanto o pesado fardo.

Que sentia mais falta, às vezes, dos livros que as pessoas.

Que queria ser santa, mas na primeira vez que riram da ideia, desistiu.

Que gostava de ser caridosa, mas na quinta vez em que a lograram, fechou a mão.

Que pensava ser sexy, mas na quinta década da vida descobriu que havia duas já não podia ser.

Dela dirão que era modesta, humana e sensível.

(Outros dirão que era dissimulada, santarrona e chorona).

Que gostava de palácios, mas seria feliz com a choupana.

Que invejava os viajantes, mas desejava mesmo era apenas um jardim.

Que se enternecia pelos amantes, mas foi sozinha - até o fim.


Dela, dirão que passou como todos passam, pensando que de algum modo poderia ser eterna.
Mas passou.
E rirão um risinho comísero, de lado, baixinho.
Dela brotaram poesias, transpirações ameaçando a inspiração,
E por fim a inação. A espera.
Contentou-se em passar.
(Entendeu que a vida, afinal, é só isso)

3.4.17

Kumbalawé

Fazia mais de um ano que eu não escutava Cirque du soleil, e ao escutar os temas dos seus espetáculos, lembro que existe beleza, serenidade e tranquilidade bem aqui, no íntimo da gente, se deixarmos.
Ao escutar Kumbalawé eu me reencontro comigo, como ocorre sempre que escuto Cafe del Mar, Incognito e coisas do gênero. É estranho escutar essas mesmas músicas que eu ouvia quando a vida era "outra". Antes da perda.
Quando a gente perde a mãe (e quando já não se tem pai, mind you), é como se aquele que fomos sofresse uma metamorfose. Como se minha cara já não fosse mais aquela que eu tinha "antes". A de antes não poderia supor que houvesse um sofrimento assim; a de antes era a filha, e hoje não é mais filha de ninguém; a de antes sentia-se responsável por cuidar de alguém mais velho (hoje só cuida de alguém mais jovem); a de antes parecia mais bonita, mais rica em todos os sentidos, mais cheia de futuro.
É esquisita, essa metamorfose.
Minha mãe nunca vai me ver mais velha, e eu nunca mais poderei vê-la. Ponto.
A vida é mais forte que a dor.
Se eu pudesse dar apenas um conselho para minha filha, ou para qualquer ser humano, seria:

"Seja boa."

Da bondade pura nós nunca nos arrependemos.

Nossa consciência nunca doerá, ante a iminência da perda de alguém que amamos, se soubermos que demos o melhor de nós, sempre.

Seja boa, seja bom. Com você mesmo, com os outros e com Deus, não culpando a Ele pelo que Ele não causou. Seja boa e entenda que a vida é feita de dor, de sorrisos e de amor, e que no fim, só o que resta é o bem que fizemos (o que nos fizeram pesa bem menos).

Pense nos outros, antes de pensar em você, porque ao fazer isso o seu próprio sofrimento se torna menor (não o contrário).

Pense em você, sim, apenas quando outros quiserem passar por cima dos seus direitos, mas pense em você como alguém que pode se defender sem que isso fira o outro ou a você mesmo.

Convença-se de que as palavras têm força, sim - muito mais que gritos sem sentido, gestos agressivos ou choro descontrolado.

Convença-se de que na maioria das vezes a voz calma e palavras sensatas, gestos mansos e o coração aberto para o outro aliviam todas as dores.

As suas.

E as do outro.

Seja bom, porque se a vida não for muito boa em retribuição à sua bondade, como será, se você for mau?

6.1.17

A raiz da bondade



Às vezes, as expectativas que tínhamos em relação a outras pessoas não eram, realmente, em relação a elas, mas a nós mesmos.
Como em: "Se fulano fizer isto e aquilo, eu poderei (preencha com o que você quiser).
Como em: "Se fulana (for, fizer, falar, me der), eu me sentirei (feliz, gratificado, recompensado, liberto, vingado).
Todo comportamento voltado para o outro é, de fato, um ato egoista.
Visa aumentar nosso amor próprio. Perpetuar nosso bem-estar. Prolongar nossa satisfação. Nos liberar de obrigações.
Nenhum ato de caridade é gratuito.
Nenhum.
Sempre há a expectativa de alegrar ou ajudar alguém, obviamente, mas a razão vai mais além. Fazemos o bem na esperança de que o ato gere réplica, alcance outras pessoas (não necessariamente aquela que ajudou), como em uma corrente. Fazemos o bem esperando, no mínimo, gratidão (não recompensa monetária, se não foi estipulado que haveria a devolução). No mínimo, um resultado que nos faça pensar: "Valeu a pena".
Quando se faz o bem, o que menos importa é a devolução, mas gratidão é de graça.
Gratidão significa: espalhar a bondade. Cumprir o prometido (ou se esforçar), utilizar o que se recebeu (um gesto, um valor, uma atitude, um conselho) para melhorar nossa alma, não nosso bolso.
Então: não há doação sem expectativa.
Me desculpem, mas não há.
Há, no mínimo, a expectativa de fazer alguém feliz - e se isto ocorre, nós também ficamos felizes, o que é o maior "egoismo", francamente, o dar para receber.
;-)

31.12.16

(Ao som de "Wild World")

Te dei minhas asas para que aprendesses a voar.
Te dei minhas asas para que teus voos fossem mais longos, mais altos e mais perfeitos que os meus, sempre em zigue-zague, nunca tão altos, nunca tão longos.
Fui embelezando as plumas, ajeitando  as condições, reformando e refazendo tudo para que pudesses ver o mundo do alto.
Só não contava que, ao te dar minhas asas, eu fosse ficar presa à terra.
Achei que tu, pássaro mais forte e mais jovem, me levarias junto de vez em quando em tua recém-conquistada liberdade.
Achei que me verias lá de cima e pegarias minhas mãos levantadas ao ar, à espera do passeio.
Eu não contava com ganhares as minhas asas e descobrires que elas servem para nunca mais voltar.
Para abandonar o ninho e esquecer que, afinal, as asas ainda não são tuas. Que eram apenas emprestadas, como só quem ama poderia fazer por ti.
Logo, talvez descubras que as asas talvez não sejam do tamanho ideal. Que, no alto, também há predadores. Que, lá em cima, a chuva também cai e ventos fortes podem te derrubar. Que, quase alcançando as nuvens, ao olhares para baixo também há coisas feias e que não é possível pairar eternamente.
Quando pousares, estarei aqui.
Sempre.

28.12.16






Dentro de casa faz 32 graus, antes de eu me refugiar no ar condicionado para trabalhar.

Sem mais nem menos, sentindo o bafo pegajoso do calor, lembro de minha vovó por parte de mãe, a Dona Norma, que faleceu mais de vinte anos atrás por um motivo bobo (escorregou em um degrau pequenino, quebrou a bacia e nunca mais se recuperou).
Minha infância:
Pegar dois ônibus no verão tórrido com minha mãe e meus irmãos para ir visitá-la em Novo Hamburgo.
Descer do ônibus às vezes no meio do caminho para comprar remédio antienjoo pra mim, que tinha pavor do balanço do ônibus.
Ir sofrendo até lá, apenas para, ao chegar naquele chalé muito pequenino de madeira simples, encontrar a familharada toda já lá, espremida em volta da mesa com cadeiras que, exceto por uma cristaleira pequena e um balcão (de onde eu retirava livros policiais do meu avô pra ler e não morrer de tédio), era só o que cabia na sala muito pequenina, sem TV, sem sofá, sem abajur, sem conforto.
Durante o café fervendo e os bolos, pães, cucas, as tias fofocavam e as vozes iam se elevando em alegres histórias e risadas, muitas risadas.
Minha vovó (nunca a chamei de vó, só "vovó") não parava. Praticamente não sentava.
Da sala, ia para a minúscula cozinha pegar mais isto e mais aquilo, voltava à mesa e repetia, inúmeras vezes: "Mais café?" E eu tinha de botar a mão sobre a xícara para impedi-la de me servir mais.
O calor naquela sala era lendário, indizível, impossível, mas por carinho e consideração umas pelas outras, as irmãs da minha mãe faziam de conta que não o sentiam.
Eu, que já não gostava de bolo ou cuca, em pouco tempo me satisfazia e, já que as vozes femininas agudas e altas me deixavam cansada e o calor parecia que iria me consumir e assar, me refugiava na também pequena área coberta nos fundos, onde, em torno de uma mesinha apertada, meu vovô e seu irmão (meu tio-avô que me intimidava) e às vezes um ou dois tios, jogavam cartas e quase sempre escutavam futebol no radinho de pilha. Meu vovô me dava uma piscadinha, cúmplice da minha escapada, e eu ficava ali, lendo Ellery Queen e sentindo o cheiro do cigarro "Tufuma" sem filtro do meu avô.
Minha vovó não tinha absolutamente nenhum luxo e não os desejava. Praticamente no fim da sua vida, já sem meu vovô, ganhou um televisor. Nunca teve máquina de lavar (lavava roupa para fora, no "muque" mesmo), nem ventilador, ao que me conste. Suas roupas eram vestidinho retos, floreadinhos e com botões pequenos. Sempre o mesmo modelinho, com um casaquinho no inverno.
Era uma pisciana das mais típicas - generosa, mas mortalmente azeda e mal-humorada com crianças barulhentas e invasões na sua vidinha.
Acredito que aquelas visitas à minha vovó na infância moldaram meu pavor a ambientes abafados, lotados e com conversas altas, rápidas e confusas.
Mas a lembrança fica, com amor pela vó que por menos dinheiro que tivesse sempre dava um jeito de receber bem e me presentear em Natal, Páscoa e aniversário, e pelo vovô com cheiro de cigarro, de olhos verdes aguados que me chamava de "bonecra" e pelo qual - confesso - eu era apaixonada, já que foi o primeiro homem que me amou com cumplicidade, gestos e palavras (meu pai não demonstrava amor).

27.12.16

Back

 

Por um pouco mais que cinco anos eu abandonei este blog.
 Não sei dizer por que. 
Minha mãe faleceu, a vida nunca mais foi a mesma, mas não quer dizer que tenha sido ruim, neste período de cinco anos, só não foi a mesma.
Em cinco anos, aconteceram mais coisas na minha vida do que (exceto pelo ano em que minha mamãe faleceu) nos cinco anos anteriores, de 2005 a 2010.
Talvez eu tenha vivido mais para fora de mim mesma, não tanto nesta minha redoma de letras, sentimentos e emoções.
Talvez eu não tenha tido tempo. 
Não - eu sei que algum tempo eu tive, eu sei que escrevi algumas coisas no Facebook, mas por algum motivo, um desgosto com as dores até 2011, considerei este blog aqui morto.
Mas 2012 foi muito difícil, minha vida continuou muito ocupada com problemas (dos outros, refletindo em mim) em 2013, em 2014 não sei por que não escrevi e em 2015 havia uma ferida aberta nos meus sentimentos. Era melhor nem ter onde mostrá-la, não tocá-la, não vê-la, fugir.
De repente, me vejo disposta a recomeçar.
Em muita coisa, não apenas no blog.
Não há feridas, não há entraves, não há bloqueios.
Aqui é onde me solto e escrevo coisas que não escreveria no Face.
Aqui é onde eu não tenho barreiras.
Escrevo não para ter fãs. Não para ter um grande número de seguidores. Não para "causar".
Escrevo porque é o que faço.
No Face, eu falo com pessoas.
Aqui, eu falo comigo mesma.
Se olhos me bisbilhotarem, é consequência de eu escrever aqui e não me importo, mas escrevo porque é o jeito que tenho de esclarecer minha mente. Escrevo porque é meu modo principal de comunicação.

Vamos lá.
 

16.8.11

Olhar apenas para nosso próprio umbigo nos deixa míopes. Olhe para os outros, mais e menos próximos, e sua visão humana continuará aguçada.
Pense em ajudar alguém. Não apenas pense. Faça. Seus problemas desaparecerão como por encanto. Como bônus, você recebe créditos em bondade para a sua vida (acredito realmente nisto).

A morte não existe.
O que existe é apenas uma distância maior entre nós e aqueles que amamos.
E uma espera sem tempo marcado (até onde saibamos) pelo reencontro.

17.6.11

Diário de uma mulher comum - XVII

Ontem à noite, por um breve momento, talvez 10 segundos ou nem isso, eu tive a certeza de que o olhar da minha mãe estava sobre mim.
De repente, sem mais nem menos, no meio de preparativos para ir dormir e outras rotinas automáticas, minha mente (ou coração?) foi invadida por uma só sensação, impossível de descrever em palavras, mas foi como se uma enchente de amor pairasse sobre mim, e assim, subitamente, me vieram lágrimas aos olhos e falei, reconhecendo aquela sensação: "Eu sou muito amada".
Desculpem-me, cínicos de plantão, descrentes ou aqueles que acham que a vida é só rarará, risinhos e besteirol e que tocar nesses assuntos é "coisa de louco".
Preciso avisar que, embora eu não goste de tocar muito neste assunto para não sofrer preconceito, eu sou sensitiva desde que me entendo por gente e, de vez em quando, preciso confiar na minha intuição e mediunidade.
Exatamente por já ter tido ("sofrido"?) incontáveis experiências e por usar minhas "antenas" todos os dias, para as mínimas coisas, sei diferenciar uma ilusão de uma sensação real de contato.
Logo depois que minha mãe faleceu, eu senti diversas vezes, durante uns três dias, alguém passando a mão por minhas costas devagar, como quem consola. Uma ajuda amiga, que me fazia correr minha própria mão por minhas costas ao sentir isso, até onde meu braço permitisse, para ver se não havia uma etiqueta de roupa, um fio de cabelo, um inseto, algo assim, causando a sensação de toque consolador.
Eu já não choro mais todos os dias. Mesmo porque eu preciso é viver e cuidar de mim - e mesmo porque eu evito recordar, porque isso traz muito sofrimento.
E então, quando estou vivendo normalmente, me sinto amada intensamente, por breves instantes.
Assim como veio, passou.
Mas o sono foi embora, o choro veio de novo e no meio da noite, quando eu já caía no sono, fui despertada por um forte cheiro de injeção, de remédio, quando não há a menor possibilidade de existir tal odor na minha casa inteira, menos ainda no meu quarto.
Assim, levantei, acendi a luz, ainda procurei a origem do cheiro, não encontrei e, finalmente, falei para mim mesma: "Let it be".
Deitei-me novamente com a TV ligada baixinho, acomodei-me na minha posição de dormir só escutando a TV (porque fica para o lado contrário daquele em que durmo) e em menos de cinco minutos já estava apagada.
Dormi menos que em muitas noites e acordei sem despertador às cinco e meia. Totalmente repousada.
Obrigada, anjos e amigos do outro lado.
E ao carinho de mãe, que nunca abandona os filhos.

16.6.11

Sarah Bareilles, "Gravity"



Este é o tipo de música que me faz querer me apaixonar novamente. E, mesmo sem estar apaixonada, é "como se", ao escutá-la. Inspiradora.

15.6.11

Três semanas de vida, dentinhos quase nascendo



Essa coisinha fofa é um dos cinco lindos siameses que minha Nyx teve.
Ela estava com seis para sete meses, eu planejava castrá-la dali a alguns dias, quando entrou no cio pela primeira vez e passou a noite fora. Na manhã seguinte, quando eu, desesperada, peguei a bicicleta para procurá-la pelo bairro, assim que saí pelo portão ela cruzou a rua a toda velocidade, com um belíssimo siamês em seu encalço. Ela entrou em casa, o siamês voltou para o seu canto.

Resumo da ópera: minha Nyx entrou no cio e conseguiu encontrar logo um siamês, que lhe deu cinco lindíssimos e saudáveis filhotinhos.

Minha vontade é ficar com todos eles, mas obviamente, não pretendo virar aquelas loucas que têm 10 gatos em casa (embora o pátio seja grande e eu pudesse tê-los). Já estão todos dados, menos um, que minha filha escolheu. Mas minha paixão é esse aí da foto, um machinho que sempre que me vê já vem correndinho para o meu lado.

Um motivo adicional para não ficar com todos: já tenho a Nyx, o Kinim e a Lana...Agora a Nyx vai entrar na castração, como o Kinim e a Lana. Por mais belos que sejam os filhotes, a cada parto eu tenho de lavar e lavar e lavar cobertores... (a Nyx é caprichosa, e eu também).

Minhas coisinhas mais fofas (literalmente)

7:15h, bom dia em Eldorado do Sul

23.5.11

Para que servem as tias?

Para nos dar amor infinito quando perdemos a mãe.
Eu não conhecia a beleza desse tipo de amor, até minha mãe cruzar para o outro lado.
Coisas fofas.

21.5.11

... A gente faz bem em escolher com que vai se magoar, porque se não escolher, fica difícil viver.
Foto: uma calçada na Jerônimo de Ornellas, Porto Alegre. Crédito: Dayse Batista
Uma coisa injusta (não só comigo, como com qualquer pessoa): alguém interpretar - incorretamente - o que escrevo e, quando eu explico o que escrevi, a pessoa magoar-se.

Então, o desejo parece ser apenas o de fazer valer sua opinião.

Triste, isso.

20.5.11

Sabe de uma coisa, mamãe...
O único jeito de eu não me destruir de saudade é anulando todos os pensamentos que me remetam a ti.
E anular os pensamentos, fugir do teu rosto na minha memória,fechar meus ouvidos para a recordação da tua voz, é como cavar um gigantesco buraco na minha vida, onde sempre estiveste.
E assim, eu me cubro com um cobertor esfarrapado de migalhas de realidade, de rotinas que não fazem mais sentido, porque tu não estás mais aqui.
Quantas vezes terei de repetir a mim mesma que não estás mais aqui, até me convencer?
Sabe de uma coisa, mamãe...
Cada vez menos eu me permito chorar, porque se começo eu não paro mais.
O mundo, sem ti, ainda é um lugar muitíssimo menos amigo, menos suave e para sempre menos generoso comigo.
Hoje eu sei que saudade, em seu sentido extremo, só pode ser sentida por quem perdeu alguém como tu, essencial para a vida.
Essencial, quase como se, sem ti, eu não a tivesse mais.

11.5.11

HERE I AM (Shawn McDonald)

Se existe uma música que me faz sentir vontade de me rasgar toda, berrar, de abrir alma e coração, me atirar de cabeça numa paixão, esquecer barreiras, distâncias, medos e o universo inteiro, é esta.
Dá vontade de nem sei... ("ando tão à flor da pele, que qualquer beijo de novela me faz chorar..", mas isso já é outra música, igualmente bela)...
Esta música abre uma porta em mim que em geral está fechada. É um convite irresistível.

O Shawn McDonald tem uma voz maravilhosa, e sua interpretação nesta música é uma das coisas mais agitadoras de coração que conheço.



6.5.11

Piada do dia:

Em uma revisão de medicina, texto sobre análises laboratoriais, o engraçadinho traduz "draw order" por "ordem de sorteio"...


E são 14.000 palavras com uma média de 40% de correções... para uma agência para a qual me orgulho de trabalhar (Burg, de Chicago, fundada em 1930) e que só tem excelentes profissionais.

Queria saber de onde tiraram essa anta, desta vez.

Ainda bem que antas não sobrevivem... pelo menos não sobrevivem ao primeiro trabalho em uma mesma agência. O lado ruim é que logo pegam mais trabalho para uma nova agência, e vão pulando, enganando e ganhando seu dinheirinho. E se dizendo tradutores.

Estou no meu momento de raivinha. Desculpem.

27.4.11

ABRACE ALGUÉM HOJE

Não me preocupa muito estar sem dinheiro,
não comer o que desejo,
a falta de viagens,
passeios,
de um bom livro,
o tempo ruim,
insônia.
O que me seca,
me entristece,
me isola em mim mesma
me tira o brilho,
me desmotiva,
o que careço,
com toda a sinceridade
e profundamente,
são abraços de afeto
(e a gente pode pedir dinheiro, pedir comida, pedir livros e se refugiar do frio ou calor, mas não pode sair à rua pedindo abraços, por mais que isso seja vital)

26.4.11

Não sabem falar, não abram a boca

Coisas que me irritam muito:

Vendedores que dizem "softer" (para "software")

Vendedores que dizem "home títcher" (ou é professor doméstico ou é home theater, palhaço, mas o que eu vi na minha frente não parecia um professor, e sim um sistema de som, pura e simplesmente)

O pior é ter de rolar os olhos disfarçadamente, para não ter de corrigi-lo (já fiz isso uma vez, numa loja em que anunciavam pelo sistema de som da loja a venda de "nóte" books, onde ficaram extremamente magoados comigo e continuaram anunciando nóte books, acredito que com mais vontade ainda)

A pior experiência não é corrigir ignorante, mas corrigir burros. Ignorante aprende; burros, não, e ainda acham que *a gente* é que é o asno. E em segundo lugar vem a experiência de passar por arrogante, quando se tenta corrigir.

Três segredos e velhos hábitos

1. Eu escrevo diário desde que tinha 12 anos. Queimei a maioria, em um dia de fúria com as viradas da vida. É esquisito constatar nosso amadurecimento e envelhecimento com diários. E é muito estranho ver o passado vivo em diários antigos.

2. Meu passatempo preferido para pegar no sono ainda é inventar histórias. Levo uns quatro anos para concluir filmes mentais inventados, histórias completas, e em meio à elaboração das características físicas de um ou outro personagem, ou detalhando uma cena verbalmente em minha cabeça, geralmente durmo - de modo que nenhuma ideia se fixa mais que dez minutos e, na noite seguinte, tenho de optar se trabalho novamente a cena ou se vou adiante na história.

3. Escrevo melhor do que falo, de modo que quando preciso organizar minhas ideias, finjo que estou escrevendo. Ao falar, eu gaguejo um pouco, sou atrapalhada, as ideias se atropelam. Ao escrever, não. As frases se colocam direitinho, "de primeira", na tela ou no papel, sem gagueira (!) ou atropelo, sem precisar de rascunho. Se eu pudesse optar, não falaria nunca mais - só escreveria e reservaria a voz só para cantar.

24.4.11

20.4.11

Cola em teste (fofocas do mundo tradutório)

Eu reviso testes para a contratação de tradutores por uma agência. De dez, um consegue ser aprovado, em média.
Tá certo que a agência não é daquelas que pagam uma fortuna para profissionais com anos de estrada nas costas, mas considerando que pretendem admitir recém-formados, um aprovado em cada dez pretendentes a tradutor deveria ser assustador.
Só não me assusta mais porque tenho décadas de estrada e me decepciono quase todos os dias com os resultados do "trabalho" de tradutores - alguns até com bom nome na praça - e já vi praticamente tudo.
O que eu ainda não tinha visto era cola em teste de tradução.
Dois tradutores, uma mulher e um homem, com testes de versão e de tradução exatamente iguais, com os mesmos erros e as mesmas vírgulas nos lugares errados. Invalido os dois e reservo dois minutos para ficar de boca aberta, pensando como alguém pode ser tão idiota assim. Colando em teste, o que fariam na hora de um trabalho bem técnico? Mandariam pro tradutor do Google? Aposto que sim.
Tenho nojo de gente metida a esperta.
Por outro lado, é graças a esses que os tradutores de verdade se valorizam a cada dia.

(se eu fosse contar todas as histórias que conheço... Infelizmente, a ética me impede.)

Dois homens bravos. Dois homens atraentes. 
Dois profissionais de primeira.
Dois mortos na Líbia.
Duas grandes perdas.
Duas grandes ausências.
Duplo lamento.
Chris Hondros, já indicado para o Prêmio Pulitzer, trabalhava para a Getty Images e Tim Hetherington, indicado ao Oscar com Restrepo, era fotógrafo da Vanity Fair. Ambos morreram na Líbia hoje, durante ataque em que mais dois profissionais ficaram gravemente feridos. Grande pena, o tipo da coisa que me emociona.



Foto de Chris Hondros

Foto de Tim Hetherington

5.4.11

Minha mãe foi pro Japão

Nos primeiros dias após a perda de minha mãe, inventei a fantasia autoprotetora de que minha mãe havia ido morar no Japão, bem longe, no interior, sem Internet...
Quando a dor ameaçava me estraçalhar, eu brincava, comentando: "Mas que droga, ela ter ido pro Japão assim, de repente..."
Minha mãe foi pro Japão.
E então vieram o terremoto e o tsunami, o vazamento nuclear...
Pobre da minha mãe.
Tive de tirá-la às pressas do Japão num avião de sonhos, improvisado, particular, só pra poder levá-la para a Rússia.
Acho que lá não haverá nenhum desastre natural e ela poderá viver em paz, embora tão distante de mim...

(aos desavisados: isso não é um atentado contra a memória de minha mãe. É o tipo de humor que ela apreciaria, como quando fomos uma vez ao cemitério e, em um dos corredores, vimos uma lápide toda preta, de vidro, brilhante, sem qualquer inscrição e, ao um comentário meu de que só faltava mesmo o controle remoto, porque já haviam providenciado a TV de plasma, ela caiu na risada e foi ampliando a brincadeira - e lá fomos nós, descendo as rampas do cemitério desde o sexto andar, rolando de rir, com vergonha do ataque absurdo de apreciação pela vida num lugar tão esquisito)

19 + 34

Dezenove anos atrás, meu irmão, querido, honesto e honrado, partiu deste mundo, aos 34 anos.
Ele deixou de ver muita coisa - na época, mal os CDs tinham surgido. O telefone era seu vício (sorriso, aqui, ao lembrar), e era preciso puxá-lo, praticamente arrancar o aparelho das suas mãos, porque quando voltava de suas viagens, meu irmão caminhoneiro ("internacional", frisava ele, já que conhecia o gelo da Patagônia, além do calor horroroso das terras secas do nordeste do Brasil) grudava-se em seus amigos, por telefone ou pessoalmente.
Ele era chegado na família, mas conheceu apenas dois dos oito sobrinhos que teria hoje, incluindo minha filha, por quem seria louco - seus temperamentos são tão parecidos que às vezes me espanto.
Ele não teve Internet, nem twitter, nem TV a cabo, nem DVD, nem pay-per-view, nem homebanking, nem celular, ipod e tanta coisa que eu já vivi para ver - mas sua vida era brutalmente real, com sofrimentos, perdas, encontros e desencontros, todos acontecendo em tempo e realidade reais.
Seu sorriso era precioso, e sua risada mais ainda (uma risada pequena, gostosa e inesquecível).
Éramos parecidos - fisicamente, e nos medos, nas solidões e anseios, na espiritualidade.
Meu irmão não teve tempo de apegar-se a alguém e casar. Não teve filhos. 
Deixou em minha mãe uma marca feita de lágrimas corrosivas, ardendo para sempre em sua alma. Minha mãe levou alguns bons anos para voltar a sorrir.
Perdi meu irmão quando começávamos a realmente apreciar os adultos em que havíamos nos transformado, e hoje eu precisaria dele mais do que nunca antes (apesar de ainda ter outro irmão amado). 
Infelizmente, meu querido Edinho não está aqui para servir de apoio, mas felizmente não passou pela dor de perder nossa mãe.
Ela está com ele, agora. Os dois, juntinhos (e ela sempre dizia que seria a próxima a morar juntinho dele, quando íamos ao cemitério).



2.4.11

O Homem do Terno Preto

Para mim, existem poucas coisas mais gostosas que ler histórias do Stephen King antes de dormir. Aliás, qualquer livro bom é uma delícia - e este é um prazer que eu havia abandonado, tantos anos indo dormir só quando já caía de sono.
Como a filha de Deus aqui anda selecionando mais os clientes e, portanto, trabalhando menos e ganhando mais, agora sobra um tempinho para esses prazeres.
Eu estava lendo "O Idiota", do Dostoievski, depois que terminei "Cell", do Stephen King. É um livro pra divertir, depois outro mais sério. Só que O Idiota, inegavelmente interessante, me irrita pela tradução antiga e"ultrapassada" com sua linguagem demodê. Sei lá, acho que uma tradução deveria ser atemporal, não com palavras localizadas numa época, e numa tradução que nem sei de onde veio (tá, sei o nome do tradutor, e encontrei no blog da Denise Bottman (http://naogostodeplagio.blogspot.com uma menção de que a tradução é da década de 40... logo, explicam-se as expressões de linguagem beeem chatinhas e a estranheza da tradução)... Então, deixei um pouco de lado o Príncipe Mítchkin e sua traduçãozinha chatinha (não entendo russo - se entendesse, lia no original) e ontem dormi ao som do audiobook do "The Man in the Black Suit", do meu amadíssimo Stephen King, que me salva do tédio da vida.
Audiobook é o "contar historinhas para dormir" versão adulta.
Ah, delícia, botar a cabeça no travesseiro, ligar o notebook (ainda não tenho um Kindle) e dormir sob aquela voz soturna de velhinho dizendo que, em 1914, quando era um garoto....
Pena que o prazer não durou muito. Sou excelente "dormideira". bastam dez minutos na cama e eu me vou pro mundo dos sonhos.
O lado bom é que o audiobook vai durar muito (assim como os livros, que só leio na hora de dormir e, por isso, demoooooro pra acabar - e sou daquelas que livro só é livro se tiver mais de 500 páginas, hehe).
Eu recomendo.