31.5.06


Um Corpo para o Crime é um dos meus outros filhos recentes. Recebi o exemplar da editora semana passada. Lançamento da Bertrand, deu-me um trabalho impressionante de pesquisas profundas ao traduzi-lo, ano passado. Recém foi lançado e eu recomendo. Uma história de suspense incrível dessa escritora ganhadora de prêmios (Val McDermid). Procurem nas boas livrarias...
É com orgulho que apresento um dos meus filhos mais novos, traduzido para essa parceria da Editora Casa da Palavra - http://www.casadapalavra.com.br/ - e o Comitê Olímpico Brasileiro.

Alguns livros que traduzo me enchem de orgulho. Esse é um deles.

É meu livro número 91 (91 livros traduzidos, no meu currículo).


25.5.06

Ando tão sem criatividade que nem consigo responder para mim mesma por que ando tão sem criatividade.

Talvez eu precisasse sofrer, para ter inspiração.
Talvez precisasse me apaixonar.
Talvez passar fome para entrar em transe.
Talvez precisasse chorar.

Não sofro. Não amo. Não passo fome. Faz tempo que não choro.

Ter uma vida satisfatória não me satisfaz.

22.5.06

Ainda se fazem companheiros?


7.5.06

Twisted

Sacana não é o cara que nunca foi teu homem, que foi apenas amigo mas agora não te vê mais porque tem alguém e pretende não dar motivos pra brigas com a mulher que ama (nem que seja apenas o amor do mês). Esse é um cara bem-intencionado e, embora magoe, é compreensível, até elogiável (Deus que me perdoe, nunca pensei que diria isso).
Sacana é o cara que foi teu um dia, casou com outra, tornou-se teu amigo e agora te convida pra jantar, quando sabes bem que a intenção dele é jantar-te.
Tola é a mulher que leva a mal o amigo bem-intencionado e acredita nas intenções do cara que, podendo ter casado com ela um dia, preferiu outra mas não se cansa de tentar com aquela com quem "não estava bem certo se era o momento, antes".
Acorda, mulherada.
Quando um homem te ama, ele diz.
Quando um cara te quer, ele fala.
Só uma tola acha que o homem não diz que a ama "porque ele não fala muito, mesmo".
Muitas vezes, quando não diz é porque não tem o que dizer sobre o assunto. Se quisesse, falava. Se não falasse, mostraria. Se não suportasse tua falta, te procuraria. Faria o impossível.

Um dia vou dar nome aos bois. E eles vão mugir taaaaaaaaantooo............ Vou começar com o A., passar pelo H. e terminar antes do fim do alfabeto só porque não conheço nenhum Zeno ou coisa parecida.

P.S. - Amigos, continuem sendo fiéis às suas mulheres. Eu continuo amiga e tiro o chapéu pra vocês. Sacanas, a otária aqui acordou faz tempo.


Pra quem ama ska e adora músicas divertidas, como eu, o PIETASTERS é um prato cheio. O forte dos caras é ska, com muita competência, mas eles atacam de rock (do bom) e de reggae também.

DELICIOSO.

Experimentem provar os "Degustadores de Torta".

28.4.06

U.N. Report: Tehran Defiant

Next war, please one step ahead...

26.4.06

Mais ou menos o que eu disse à minha filha (e funcionou)

* Tradução: "A poeira é feita de maus pensamentos e palavras feias, e de agora em diante você precisa apenas fazer coisas boas, porque sua mãe já cansou de passar o aspirador".

Não é uma gracinha? :-)

24.4.06

Seria tão mais fácil acreditar que só a matéria existe...
Entretanto, estou "velha" demais, experiente demais e antenada demais no etéreo para fingir que não me importo com nada além do corpo e das coisas.
Seria tão mais fácil viver apenas um dia após o outro...
Entretanto, é quase impossível abandonar a mania de viver no futuro sempre achando que o momento de agora já é o passado e que mesmo este futuro passa depressa demais.
Tudo tão breve nesta vida...
E sendo tão breve, ainda precisamos nos preocupar com o fato (possibilidade?) de a vida não ser só isso.
Queria por um instante baixar minhas antenas e mudar os meus canais.
Ser só matéria.
Ou uma formiguinha ignorante, pequena e limitada.
Entretanto, como elas, vejo-me limitada a seguir minhas trilhas.
Só queria trilhas mais claras.
Às vezes.

5.4.06


Quatorze anos atrás, foste embora.
Domingo, chovia.
Teu capacete não te deixou ver a carroça na escuridão, sob a chuva fina.
Até hoje não sabemos que carro te encontrou no meio da pista, quando caíste da moto ao te desviares da carroça (não quisemos saber - o motorista não teve culpa).
Quatorze anos atrás passei o domingo contigo. Isso nunca acontecera, tu e eu em um domingo inteiro juntos. Eram raras as oportunidades de estarmos juntos e durante anos, discutíamos brigávamos, nesses encontros em família.
Agora, porém, era a fase em que nos tornávamos realmente amigos. Irmãos de alma e carne, tão semelhantes nas crenças, nos valores, nas decepções, nas esperanças, nos medos. Meses antes, quando começaram os pesadelos dos quais eu despertava chorando, começamos a admitir nosso amor um pelo outro (se de longe só falavas bem de mim para teus conhecidos, de perto só discordávamos -- mas então, quatro ou cinco meses antes daquele domingo, algo mudou e vimos um ao outro como sempre deveríamos ter visto, com amor raro e precioso.)
Naquele dia, rumo ao cinema, te olhei diferente.
Perguntaste "O que estás olhando, bruxa?" (eu sorri -- desde a infância eu era a "bruxa", para ti, e sabia que isso tinha muito de carinho)
Perguntaste mais duas vezes, na volta do cinema ("O Príncipe das Marés", tua escolha - peguei horror desse filme). Na última, respondi, com ternura: "Não posso te olhar?". Te amava mais, naquele momento e, então, não sabia o porquê.
Não me despedi de ti da forma habitual. Em vez de olhar até entrares no elevador; em vez de correr à sacada para te ver subindo na moto, onze andares abaixo; em vez de sentir o coração partido ao te ver ir embora... Em vez disso apenas te disse "tchau" depois do beijinho no rosto. Fechei a porta.
Te encontrei novamente quatro horas depois, mas já não viste.
Quando ligaram dizendo que havias sofrido um acidente, ainda chovia. E eu sabia que havia te perdido.
Não tive pressa em ir ao teu encontro.
Não havia mais pressa.
Nossa mãe não se lembra daquele dia (a dor inimaginável apagou a memória).
Lembro de todos os segundos.
Lembro que fui te encontrar, solitário e deitado, apenas um tênue fiozinho de sangue no cantinho de uma das unhas. Inteirinho.
E não estavas mais ali.
Nunca me perguntei por que me ofereci para fazer o que só havia visto em filmes: ir te ver, te reconhecer, saber se era tu mesmo, irmão, parado ali e incrivelmente seco com tuas roupas, embora tudo tivesse ocorrido na chuva. Nunca entendi isso. Um erro de continuidade, nesse filme maluco que pensamos ser realidade?
Partiste naquele dia e a partir dali nunca mais tive a ilusão de eternidade. Nunca mais tive os pesadelos dos quais acordava chorando quase todas as noites. Agora eu sabia por que alguém me avisava, e qual era o aviso, por que alguém me preparava e por que a mim.
Sabes que te amei. Sabes que és padrinho de minha filha, aí onde estás, ainda que não a tenhas conhecido.
Sabes que nunca, nunca, nunca te esquecemos.
E sabemos que estás bem.
Sempre dói, irmão, como se fosse ontem.
Sempre doerá.
E ao mesmo tempo, meu lindo, valente, querido, honesto, forte e amado Edinho, somos felizes porque estiveste conosco.
Tua irmã bruxa um dia contará aos outros como também sabias que era tua hora (eu sabia, mas não reconheci naquele instante).
Mas ainda não há coragem para isso.
Fica com Deus, com o pai, com nossa vó tão exótica e com teus amigos que já partiram.
Um dia nos vemos.

4.4.06

CONFUSÃO "EMESSENISTA"

Tenho 82 contatos no MSN.
Quatro Anas, Três Vivis, dois Luíses, dois Daniéis e achava que havia um Sid, apenas.
O MSN é assim: temos uma fileira de gente ali, que entra, sai, às vezes nos bloqueia, às vezes desinstala o programa e nos inclui novamente, às vezes sai do ar durante muito tempo... Sou gente boa, e em geral primeiro permito o acesso pra depois ver se conheço ou não. Se não conheço, fatalmente bloqueio pra sempre (a não ser que seja um caso excepcional de um homem extremamente inteligente, interessantíssimo, boa-pinta, livre e desimpedido e que more perto de mim -- o que, francamente, não existe e se existir não vai me querer, dãh.).
Então:
Ontem à noite entra o Sid online jogando uma piadinha sobre um novo "fã" que me caiu do céu (do céu? really...).
Respondo no tom bem-humorado que sempre uso com ele.
Então pergunto de quem é aquela foto. Quem é aquele na foto.
"Sou eu", responde.
Acho que está de brincadeira. O Sid é mais gordo, mais moreno, também usa óculos mas tem cabelos pretos e curtos. Ele se ofende, inventa uma desculpa e me deixa pendurada.
Hoje, encafifada a mais não poder (detesto ofender as pessoas involuntariamente -- quando o faço, é por querer mesmo), resolvo dar uma revisada na minha lista de contatos.
E lá descubro um segundo Sid. Que é esse com quem falei ontem. Que não é o primeiro Sid. Que não poderia ter a cara do Sid porque não é o Sid, mas sim o Sid.
Entendem?
Nunca falei antes com este Sid.
Ou falei, achando que era o Sid.
Ufa.
Mando email pedindo desculpas. Explico -- e acho que pareço uma idiota, com minha explicação.
Exceto por um tal "Daniel Dourado" que me adicionou ontem e não deu uma palavra comigo ainda, mesmo quando perguntei quem era, achei que eu sabia quem estava na minha lista.
Não sei.

Pessoal, seguinte, de uma vez por todas deixa eu esclarecer esta minha aparente personalidade anti-social no MSN.

Sou uma pessoa ocupada. Ocupadíssima. Ocupadérrima.
Sou tagarela. Bem-humorada. A-do-ro falar abobrinhas e adoro gente.
Só que uso o MSN basicamente para trabalho. Praticamente só pra isso.
Vivo pedindo que tratem apenas assuntos de trabalho pelo MSN, porque se não for assim, não dou conta de responder mensagens pessoais, trocar umas idéias, realmente conversar com amigos, traduzir, ler emails, responder, consultar Google, postar no Blog...
Existe vida fora da Internet, e ultimamente tenho procurado racionalizar meu tempo online.
Então, assim:
Meu endereço de MSN é daysebat@hotmail.com. Pat e quem mais quiser, me adicione porque vou gostar muito, muito mesmo, mas entendam que apesar de AMAR um bom papo, já digito durante umas oito horas por dia. Não tenho muita paciência para ficar digitando em bate-papo. Então prefiro, de vez em quando, dar apenas um "oi" rapidinho pelo MSN, esperando que os amigos compreendam, perdoem e saibam que ainda os amo, apesar da falta de tempo e de energia pra conversar com todo mundo. Mensagens pessoais breves? Tudo bem.
Longos papos?
Mandem e-mail (que leio quando tenho tempo).
E ponham seus e-mails nos comentários aos posts (viste, Lúcia do Letras & Cia?), porque de outro modo não tenho como responder.
É isso.
Se eu confundir alguém, perdoem.
A vida não tá mole não. Mas é assim que eu gosto.
Beijos ae todos, mesmo que não sejam quem eu pensei que era, ou até por causa disso, tá?

3.4.06


Então essa mulher queria ser maga.
Criou um sigilo, pôs nele seus desejos com cuidado.
Memorizou bem a prática:

criar, entrar em transe, gravar no inconsciente
(deveria depois esquecer o símbolo mágico

– rezava o mandamento da bruxaria)
Ao saltar concretizou sua vontade.
Pendurada no fio que desce do lustre, jaz a maga.
Esqueceu o que havia mandado para o inconsciente

(não apenas o sigilo, mas esqueceu-se de tudo, para sempre).
Morreu encantada, ao menos.

2.3.06

Tempos atrás criei uma palavra.

Desentendissentimento

Isso acontece quando a gente tem um desentendimento do sentimento.
Acontece.
A gente às vezes tem desentendimentos. Com pessoas às quais somos indiferentes, ou até com gente de quem gostamos, mas o desentendimento não envolve sentimento.
O desentendissentimento ocorre quando nossa visão do afeto do outro estava errada o tempo todo, e então discutimos, ou nos desiludimos, ou nos desentendemos porque é impossível conciliar, reconciliar, refazer as ilusões, reformular opções.

Eu não quero mais ter desentendissentimentos. Mas é impossível.
Seres humanos se enganam, se iludem, fantasiam, idealizam, amam.

Talvez, eu possa criar um desilusório sentifirmamento. Um céu de sentimentos e emoções onde não caiba ilusões. Um amor realista. De olhos abertos.

Quem sabe?

Um outro modo de amar é possível.

24.2.06

Para ti, Vivi

Não gostamos de ser larvas. Queremos ser borboletas.
Somos feios um dia,
Vemos o mundo à volta,
Espiamos para fora do casulo,
E temos medo.
Mãos brutas podem tentar nos despedaçar,
Olhos insensíveis não nos percebem,
Seres rudes nos rotulam.
Um dia, nós, larvinhas, andamos zanzando nos muros,
Buscando folhinhas, lambendo gotinhas, rastejando na graminha,
E sentimos rancor vendo borboletas belas nos reflexos das janelas
Até que descobrimos, finalmente, que somos nós as borboletas,
Que basta abrir as asas e partir.
Basta alcançar os céus e viver (ainda que brevemente).
Um dia, tu, larvinha, eras minha.
Borboletaste.
Te afastaste.
E eu fiquei aqui, com toda a grama, todas as árvores, todos os muros, todos os galhos, todas as mãos, todos os ventos fortes aprisionados na intenção de te proteger,
Sem saber que querias descobrir tuas asas.
Descobrir outras casas.
Voar
Bater asas e fugir.
(P.S. - Chorei com teu último comentário e parte do rancor por teres voado começou a sumir. Começou.)

22.2.06

Diário de Uma Mulher Comum VIII


“Necessário, somente o necessário,
O extraordinário é demais.
Eu digo, o necessário,
Somente o necessário,
Por isso é que essa vida eu vivo em paz”.

(versão da musiquinha “Bare Necessities” do filme “Mogli”)


Acordo descansada, finalmente, depois de uma maratona de quase um mês trabalhando mais que em toda a minha vida. Nas duas últimas noites eu havia dormido em média 3 horas por noite e, então, esta noite consegui 6 horas de sono profundo, o que é o suficiente para me fazer sentir humana de novo.
Certas coisas viram luxo para um tradutor, seguidamente: banho demorado, refeição sem pressa, cama para dormir decentemente, calorzinho, ver TV, conversar, sair à rua. E ainda tem quem se ofenda quando boto “ocupada, ocupadíssima” no MSN para evitar conversas.
Mas tudo isso compensa. A gente aprende a valorizar pequeníssimas coisas (tipo: levantar para passar um café).
E compensa porque é isso o que se ama. É para pesquisar que nasci. Para aprender. Para produzir. Para traduzir. E para ganhar razoavelmente bem (muito bem, segundo alguns parâmetros, ou nem tanto, segundo outros).
Traduzir é vocação, é aventura. Não há rotina, nem programação, não há como prever o que se fará daqui a dois dias, às vezes nem daqui a duas horas, e é preciso gostar muito de entrar num estado alterado da consciência sem droga nenhuma, apenas adrenalina, que faz com que nem pisquemos na frente da tela e com que, diante da concentração fenomenal, as horas voem.
Dormi como um ser humano normal de ontem para hoje e, ao acordar, percebi que apesar do sofrimento, esse “osso” do meu ofício é exatamente o que eu gosto de roer.
Traduzir não é para os moles de espírito e de corpo. Não é para preguiçosos e desinteressados, nem para aqueles que têm horários fixos. Apesar de não haver programação na vida do tradutor, ele precisa de uma disciplina que poucos têm. Precisa da força espiritual para saber que seu lugar, naquele instante, não é no cinema, não é no show do U2, não é no parque, nem na praia. Para saber que nosso trabalho é útil, que rende frutos (se bem que não o reconhecimento público, já que somos invisíveis para a maioria das pessoas, que sequer percebem que durante o dia inteirinho topam com nosso trabalho em tudo, do instante em que abastecem seus carros até o momento em que ligam a TV à noite para assistir ao noticiário ou a séries americanas).
Traduzir, por incrível que pareça, é um trabalho “braçal” – que o digam meus braços trêmulos, minhas mãos doloridas, pernas e pés de chumbo após tantas horas sentada. Felizmente, não tenho problemas de coluna.
Minha mãe me liga, 8 da noite, com “peninha” de mim. Eu rio, porque se o corpo mal se sustenta de pé, o espírito vai bem, muito obrigada. Nada como encher a mente só com Jogos Olímpicos e a história de seu marketing bem sucedido para esquecer outros incômodos da vida. Digo-lhe que o cansaço é só físico, porque traduzir acende a mente, não cansa. É um trabalho cerebral que vicia.
Algumas pessoas fazem da profissão sua vida. Outras fazem da profissão apenas “trabalho”. Eu tenho profissão, trabalho e vida, tudo junto, com a tradução, e sem ela não encontro minha identidade.
A pressão de traduzir faz com que nos descubramos, sempre, por revelar que somos muito mais fortes do que pensamos, mais resistentes, persistentes, perfecionistas. E quem me vê durante tantas horas quase imóvel olhando para o computador e batucando no teclado nem imagina quantas “viagens” eu fiz, nesse tempo todo: à Antigüidade, a Argos e Olímpia, a países como Grécia, Canadá, Estados Unidos e Japão, aos estádios brilhando de novos a cada edição dos Jogos Olímpicos (atenção: olimpíadas é o período **entre** os Jogos, é um erro chamar os Jogos Olímpicos de “Olimpíadas”, aprendam isso de uma vez por todas), a salas de reunião na Suíça, a mundos que normalmente não procuramos.
Estranhamente, a letra da musiquinha adorável, lá em cima, e a personalidade do Balu, o urso comodista e bon vivant do Mogli, têm tudo a ver comigo, que de comodista e bon vivant não tenho nada. Não invejo o Balu. Talvez ele não dê valor às bare necessities tanto quanto pensa, por falta do contraste, que é o trabalho duro e o esforço brutal para cumprir prazos. Entretanto, sou grata a ele por me mostrar que, depois de tanto esforço, quando o dinheirinho começa a entrar, só o que me importa são as bare necessities, somente as necessidades básicas, e tudo o que me atrai é um momento ao sol, uma risada e um abraço – o que o dinheiro pode comprar passa a ser muitíssimo secundário. Cama, comida, roupa limpa, afeto. Necessidades básicas. Bare Necessities.
A tradução sempre nos leva a novos caminhos. E a descobertas sobre nós mesmos.
Primeiro, a gente pensa que está se matando de trabalhar por causa da grana. Depois descobre que não, como provei a mim mesma ao ajudar uma amiga na primeira parte dessa maratona de um mês de dias longuíssimos na frente de um micro, com uma tradução que se pagava nada ou a miséria que ela receberia, dava quase no mesmo.
Não é pela grana.
Não é por fama (essa não existe para o tradutor, exceto entre seus pares, o que para mim não é grande coisa, mas já ajuda).
Não é por nada, exceto vocação e amor por produzir algo que permaneça.
Mesmo que passemos uma semana sem sair do escritório.

Há quem goste. Juro.


P.S. -- E nesse meio-tempo, de ontem para hoje, ganhei: dois "Eu te Amo" (de alguém cujo "eu te amo" pós-caso de amor que não deu em nada representa muitíssimo mais do que aquele "eu te amo" que ele poderia ter dito quando tentávamos ter um romance, e do meu irmão, que sempre foi todo emoção e suas emoções atualmente têm sido límpidas e belas) e um "meu amor" (meu Guri faz aniversário e eu é que me sinto presenteada com suas palavras ternas) que parecem vir do nada, mas refrescam o coração. As pessoas costumam ser gentis e demonstrar que gostam da gente, mas fazia tempo que eu não ouvia essas palavrinhas, e vindo das pessoas que vieram, sei que são verdadeiras. Espontâneas. Não "cavocadas" ou provocadas.

Sou ou não sou feliz? Hein? Diz aí! :-)

12.2.06

Up, where we belong (Brokeback Mountain)



Quando a única coisa que se tem em uma vida miserável e solitária é o amor, e nem isso pode ser vivido. Quando não se pode vivê-lo e depois é preciso passar o resto da vida sozinho. Quando não há saída, nem esperança. Quando não é preciso muitas palavras para falar de amor.

10.2.06

I'm Looking Through You
















(Beatles for me today)
I'm looking through you
Where did you go
I thought I knew you
What did I know
You don't look different
But you have changed
I'm looking through you
You're not the same

Your lips are moving
I cannot hear
You voice is soothing
But the words aren't clear
You don't sound different
I've learned the game
I'm looking through you
You're not the same

Why, tell me why
Did you not treat me right
Love has a nasty habit
Of disappearing overnight

You're thinking of me
The same old way
You were above me
But not today
The only difference
Is you're down there
I'm looking though you
And you're nowhere

Why, tell me why
Did you not treat me right
Love has a nasty habit
Of disappearing overnight

I'm looking through you
Where did you go
I thought I knew you
What did I know
You don't look different
But you have changed
I'm looking through you
You're not the same

Yeah, Oh, baby you've changed
Aah, I'm looking through you
Yeah, I'm looking through youY
ou've changed, you've changedY
ou've changed, you've changed
Te vejo em todas as meninas.
E quero que todas sejam felizes,
como tu nunca foste
E quero protegê-las,
como nunca pude contigo.
Te vejo nas tuas meninas
E quero que te amem
Como tu nunca me amaste.
... Mas nada é culpa tua.

7.2.06

EU


RECUPEREI


O MEU


GATO

(esquelético, mas vivo)

(detalhes outro dia que agora não sou dona de mim mesma)

Aos que torceram a favor, VALEU.


5.2.06

Eu, abaixo assinado, declaro...

Não acredito em conversar sem dizer nada.
(mas acredito em conversas profundas em meio a risadas)
Não acredito em ouvir sem escutar.
Aprendi devagar.
Aprendi a hora de brincar.
E aprendi que quando não é hora de brincar, não vale a pena desperdiçar vida, tempo, palavras, energia e oportunidades fingindo que se conversa.
Conversa, só as de verdade.
Não acredito em amizade sem doação.
Em amigos sem coração.
Em amor sem paixão
(mas paixão não precisa ter tesão).
Não acredito em passar o tempo.
Quero sempre que o tempo não passe.
Perpetuar o agora,
fazer render.
Não ser um equívoco dos deuses no mundo.
Não ser uma palhinha perdida no monte.
Não acredito em lutar todas as batalhas.
Acredito em escolher as que realmente valem a pena.
Não acredito em muitos ideais.
Quero a alma ideal, apenas.
E a calma real
De quem se encontra, sempre,
em seus próprios olhos no espelho,
Não nos olhos do outro.

23.1.06

Pingos luzentes
Na luz artificial
-- Choro natural

Chuva noturna
Molhando nosso quintal
-- Um ponto final

21.1.06


JACK BAUER alimenta-se de luz (que vem, certamente, das centenas de disparos de armas de fogo durante uma temporada).
De acordo com meus cálculos, ele está há mais de 15 horas usando manga comprida, correndo como louco, suando, cansando-se, gastando energia e, até agora, não tomou um golinho sequer de água e não comeu uma migalhinha sequer de pão.
Vá ser supermacho assim lá em casa...

19.1.06

Prece para hoje

Meus desejos são pequeninos. Minhas ambições, modestas.
Só peço a Deus que eu abra os olhos amanhã.
Que quando eu abri-los, logo depois ouça a voz de minha mãe ao telefone.
Que minha menina retenha seus defeitos e aumente suas qualidades, que ninguém perfeito é charmoso.
Que, longe, me ligue e eu ouça seu boa-noite sonolento.
Que a temperatura nunca mais chegue a 40 graus mormacentos.
Que os cupins das portas resolvam comer outra coisa.
Que minha gata aprenda a roer as unhas, já que não sabe cortá-las.
Que meu fogão auto-limpante aprenda a se auto-limpar.
Que a cera repelente a pó me deixe o piso impecável.
Que meu poder mental me regenere e me leve de volta aos 26 anos.
Que um raio cósmico elimine as baratas do mundo.
Que não falte comida (nem veneno de barata).
Que minhas contas não aumentem.
Que se aumentarem, eu dê conta.
Que se não der conta, tenha paciência.
Que se não tiver paciência, alguém me console.
Que se ninguém me consolar, eu não perca a fé..
Que haja café, cigarro e água mineral em noites insones.
Que um dia eu largue o café e o cigarro e não tenha mais noites insones.
Que meus amigos precisem de mim e não me deixem por namoradas ciumentas.
Que suas namoradas ciumentas aprendam a ser elegantes.
Que, sendo elegantes, ensinem a outras a também serem.
Que eu não me sinta desvalorizada, porque sou abandonada quando os amigos têm namorada.
Que os homens aprendam que isso fere.
Que, quando eu abrir os olhos amanhã, ainda tenha o dom de perdoar.
Que, amanhã, todos os que estavam vivos agorinha mesmo cheguem ao fim do dia ainda respirando.
E só isso já basta.
Amém (de coração, Deus, só isso já basta).

8.1.06

Você não gosta de mim,
mas seu marido gosta.
Ele não tem motivo para gostar,
Nem você para desgostar de mim.
Se me conhecer, verá que sou inofensiva.
Que canto porque sei e porque gosto. Que danço muito, mas fecho a janela que dá para a sua.
Que não saio para a rua quando todos saem, durante o dia, mas não há macho me sustentando e só não a vejo mais porque estou trabalhando e não há necessidade de lhe explicar que meu trabalho se faz com música alta e no quarto sim, mas é honesto e nada tem a ver com suas fantasias.
Você não gosta de mim, mas seu marido sim.
Não gosto de seu marido, nem do marido de ninguém. Na verdade, minha próxima chance de me apaixonar provavelmente será na outra encarnação. Nesta anda difícil.
Vizinha, meus saltos altos, meu batonzinho, meu perfume e meus cachos, meu vestido e minha voz não querem dizer nada. Eu uso desses artifícios para não me esquecer que ainda sou mulher (juro que em grande parte do tempo nem chego a me perguntar se sou, tão ocupada estou sempre com questões mais urgentes). No fundo, não sou feminista, mas nem sou tão feminina, e nem sei o que sou. Provavelmente não sou nada do que outros vêem, nem sou aquilo que penso ver em mim. Você não gosta de mim, mas seu marido não compreende que prefiro ter amigas que admiradores sorrateiros que me espiam do cantinho da sala na frente da minha janela. Prefiro, vizinha, conquistá-la, e ser um pé no saquinho de seu homem.
Esqueça-me.
Nem moro aqui.
Habito, apenas, porque algum lugar há de ter o corpo para largar a si e às suas tralhas -- mas em noventa por cento do tempo em que não me alugo às palavras (essas sim, minhas comandantes tiranas e soberanas), minha alma sai pelas janelas, sobrevoa as árvores, mete-se em becos e vive paixões inventadas e conquista amores reais enquanto meus olhos estão fechados.
Como você vê, vizinha, vivo entre a palavra e o sonho (sono, pouco). Não me sobra, entre os dois, tempo sequer para planejar paixões obscuras.
Deixe-me.
E se meu canto lhe incomodar, ligue sua máquina de lavar barulhenta, seu liquidificador, seu aspirador, e vá torcer seu narizinho para a louça suja (e não ligue, se seu genro comentar "Mas como canta bem essa mulher!" - não escute, prefira o som do programa dominical na TV. Afinal, você é apenas normal.).
Não me perturbe. Já tenho muito o que fazer, tentando me prender ao chão.

29.12.05

Come Softly to Me (ao som desta música, com Del Vikings ou Astrud Gilberto)

Entra, mas devagar, suavemente, anunciando-te com a sutileza de um abraço de brisa.
Entra, mas não machuca.
Não me tirarás nada que eu já não tenha perdido muito tempo atrás.
Vem, mas prefiro que não prometas nada e apenas repitas as bênçãos que tive com o “ex”. Não promete, mas me traz esperança de que serás bom, serás gentil, serás carinhoso com meu coração.
Vem, me deixa ficar contigo, inteirinha. Deixa que meus amigos, minha filha, minha família te conheça inteiro também, do princípio ao fim.
Te aproximas, e já sinto tua vibração. Tudo de novo, repito minha ânsia por envolver-te e levar minha vida contigo, novo, novinho em folha pra mim, como já fiz com outros, mas mesmo assim meu desejo de te usar completamente é sincero.
Desejo que me dês tuas melhores partes. Não me mostra mau-humor, não me traz insegurança, não me deixa no meio do caminho.
Nem precisas ser o melhor de todos. Se não fores semelhante aos piores que já tive, te amarei.
Toma posse de mim e vem com tudo, 2006.

P.S. para o post abaixo

Já que eu disse que detesto o Crowe e já havia dito que detesto o Tom Cruise e também o George Cloney, as mulheres devem achar que tenho um péssimo gosto para homens e para atores.

Não.

Admito que o Cruise e o Crowe são bons atores. O Clooney é um pateta, digo e repito. E não gosto de nenhum deles como homem, esteticament falando. Outro que vai para a minha lista do mais detestado é o Kevin Costner. Argh, que não suporto o cara.

Agora, se me perguntarem sobre meus atores preferidos (que também são atraentes para mim como homens):

Kevin Spacey
Morgan Freeman
Cuba Golding Jr.
John Malcovitch
Anthony Hopkins
Gabriel Byrne
Gael García Bernal
Guy Pierce
Sean Connery
Johnny Depp
Tommy Lee Jones
Samuel L. Jackson
Tom Hanks - Tom Hanks - Tom Hanks!!!!!!!!!!!

E em categoria "gostoso-mas-não-sei-se-é-bom-ator":

Brad Pit
Ryan Phillipe
Matthew McConaughy
Jude Law
(esquisito, são todos loiros...)

Esquizofrenia

Ok, boys and girls, vamos falar sério.

Primeiro -- estou revendo o genial "Uma Mente Brilhante" (com som sap para não perder a atuação do besta do Crowe que, afinal, ainda que eu o deteste, é um ator perfeito).
Segundo -- Sempre fui e serei fascinada pelas teorias do John Nash, o matemático que o Crowe encarna no filme. Sempre me encantaram teorias como a dos jogos não-cooperativos e outras, da matemática. Eu, que até meus vinte e poucos anos não suportavaver nenhum numero na minha frente, fui me tornando uma adoradora dos números, a ponto de pensar que deveria ter me esforçado mais e estudado matemática, em vez de letras, se tivesse mais bom-senso.
Terceiro -- conheço a esquizofrenia de perto, em teoria e na prática (não por eu sofrer da doença, mas por ter traduzido sobre ela durante 10 anos e ter tido amigos geniais que tinham este diagnóstico).

Sobre o John Nash, relendo sua autobiografia ao ganhar o Nobel, vi sua frase inesquecível:

"Tive a doença por viver em um nível ultra-lógico, respirando um ar raro demais para os simples mortais. E se ser 'curado' significasse não ser mais capaz de realizar qualquer trabalho original, uma remissão poderia não valer a pena, afinal."

E, depois, encontro esta frase preciosa:

Great wits are sure to madness near allied,
And thin partitions do their bounds divide.
(John
Dryden, Absalom and Achitophel, 1681)

Eu nunca acreditei em "loucura". Acredito em níveis de sensibilidade e na impossibilidade de adaptação ao mundo normal. Acredito na ruptura do reconhecimento entre o interno e o externo, quando um ser humano é subjugado pelo sofrimento ou quando o "real" é demais e supera suas capacidades de manejo.

Quando minha filha estava com sete meses, eu morava em um apartamento de primeiro andar. No segundo andar, morava uma família de mãe, filha e filho. Este era esquizofrênico.

Lembro-me que no dia em que se mudaram para lá, a irmã veio à minha porta pedir que não me abalasse se percebesse algo estranho (como gritos, xingações e tagarelice incessante de seu irmão), já que era esquizofrênico. Tomava medicamentos, mas se esquecesse... bem, shit happens.

Suportei extravagâncias do moço do andar de cima, mas compreendia muito bem sua doença. Ao encontrá-lo no corredor (raramente), ele era a pessoa mais educada do universo, de uma delicadeza e inteligência incomuns.

Minha tolerância foi testada em um dia em que, sem mais nem menos, sem que sequer me visse ou tivesse ouvido um "ai" de minha filha bebê, ele começou a ameaçá-la, de sua janela de segundo andar, dizendo barbaridades irreproduzíveis para ouvidos bem-educados. Só então pedi que sua irmã revisasse os medicamentos, porque havia algo claramente errado com o L.

Resumo da ópera: L. (o moço esquizofrênico) internou-se em um sítio, seus medicamentos foram ajustados, eu mudei-me (obviamente não por causa dele) e, cerca de um ano depois, quando eu já estava na casa nova, ele ligou-me. Sua voz educada e gentil disse-me que tivera dificuldade para me encontrar, porque ninguém queria lhe dar meu telefone novo. Ligava para pedir desculpas, para dizer que jamais pretendera me magoar, que me admirava imensamente por eu compreender sua situação, etc., etc., etc. Ele jamais precisaria ter pedido desculpas, mas o fato de se preocupar em se justificar significou muitíssimo para mim. Significou que ele compreendera que não podia viver naquele nível da sua realidade particular (a doença) e aceitara medicar-se para poder usar sua mente para coisas mais benéficas que ameaçar a humanidade e se ver perseguido pelos atores das novelas e pelos locutores de noticiários.

Esquizofrenia não é material para riso. Nem transtorno obsessivo-compusivo (conheço gente assim também). Nem pessoas bipolares são apenas "malucas" (às vezes desconfio que sou bipolar, com fases de mundo cor-de-rosa e outras de nuvens negras alternando-se com freqüência). Déficit de atenção. Hiperatividade. Compulsão alimentar. Transtorno anti-social, Jogo patológico, Ciúme obsessivo... nada disso é apenas um diagnóstico. Cada um desse rótulos tem a ver com o sofrimento de alguém. Mas especialmente na esquizofrenia, tem a ver com mentes que, em algum momento, começaram a perder o fio da meada e se enroscaram, confundindo o real e o imaginário (quem sabe ao certo se é imaginário mesmo, quem pode dizer quantos níveis de realidade existem realmente?) e invertendo o de dentro com o de fora, rompendo os limites do socialmente aceitável e do "normal" (normal = norma, média). Nenhum "louco" precisa ser temido. O "maluco" precisa, no mínimo, ser respeitado.

28.12.05

Pepys


Diários são coisas incríveis.
Quando lemos relatos em forma de diário, parece-nos que o tempo parou. Isso aconteceu quando reli meus diários (foi difícil me ver depois, passados 20 anos, porque minha capacidade de mergulhar nas letras levou-me de volta à época dos meus escritos como se todas aquelas pessoas -- reais -- também tivessem congelado naquele ano em que escrevi e descrevi tantos acontecimentos que transformaram minha mente -- e meu coração).
Tenho "perdido" horas de sono lendo apaixonadamente o diário de alguém fascinante, e tenho me transportado para seu mundo.
Sempre que fecho o livro, que me conquistou sem que eu tivesse chance de fugir, vejo-me presa ao mundo de Samuel Pepys, da Londres da década de 1660.
Samuel Pepys (1633-1703) escreveu (se não me falha a memória) doze diários, à luz de velas, tarde da noite, e só parou seus relatos por medo de ficar cego (lendo e escrevendo à luz bruxuleante das velas, o astigmatismo a pronunciar-se, ele, tão temente sempre a qualquer problema de saúde que naquela época de medicina precária poderia levá-lo à morte, decidiu então parar com seus diários...).
Filho de pais humildes, o quinto entre onze filhos, ele ascendeu posições e durante o reinado de Charles II manteve cargos de confiança, conquistou fortuna, manteve amantes, divertiu-se muito com todas as peças teatrais que pudesse assistir, leu muito e manteve princípios morais estranhos, mas fascinantes.
Ele, por exemplo, não deixava passar a chance de lucrar algumas libras em um negócio com fornecedores de cordas ou madeira para navios, mas então fazia uma promessa a Deus de não gastar mais do que já gastava em roupas... E um mês depois gastava uma fortuna em um terno de seda. Prometia a Deus não beber mais vinho, orava e cantava salmos, ia a até dois cultos em sua igreja em qualquer domingo, mas ao passar por vielas não resistia e entrava nos cabarés, onde qualquer beldade o atraía e, mesmo quando não "fazia tudo o que desejasse" (em suas palavras), ainda que beijando apenas os seios das damas, gozava sozinho por suas próprias mãos e lá se ia para casa, alegre e feliz.
Samuel Pepys não tinha pena de chicotear um moleque e ainda se queixava de que, ao fim do dia, seus braços estavam doídos pelo esforço...
Era um homem interessado por tudo -- por gente, por dinheiro, prazeres e conhecimento --, tendo frequentado a Royal Society e conversado com Boyle e outros "filósofos" (palavra da época para "cientista" ou "físico") eminentes. Ele regozijava-se com suas conquistas materiais, mas ao mesmo tempo confessava que não conseguia aprender nada nas aulas particulares de multiplicação e matemática "avançada" que tomava, sendo incapaz de calcular corretamente quantidade de cordas ou madeira necessária para a construção de um navio, ainda que os carpinteiros lhe explicassem até cansar. E ao prestar contas sobre suas compras, fazia cálculos básicos mentais, aproximados -- e vibrava quando conseguia, de algum modo, obter lucro, o que não acontecia sempre, já que se enrolava em suas contas e em suas explicações. A prática de lucrar como atravessador é antiga e a corrupção não era novidade.
Samuel Pepys passou para a história, mas ao ler suas palavras transcritas de suas anotações taquigráficas, vemos um homem simples que, ao galgar posições e conhecer personalidades da nobreza inglesa, ainda deixa transparecer no diário seu deslumbramento, suas fraquezas, seus preconceitos e sua ignorância sob sua capa de cavalheiro. Entretanto, ele tentou, fez e venceu na vida, tendo como única frustração o fato de não ter tido filhos (apesar dos conselhos de uma rodinha de mulheres, em um batizado, para que levantasse os pés do leito, mantivesse a barriga quente e as costas arejadas, usasse cuecas folgadas e outros detalhes que facilitariam a concepção). De um modo geral, é um homem (foi, melhor dizendo -- é fácil esquecer que, 300 anos depois, não há mais nada dele) fascinante, apaixonante, que jamais imaginaria que uma mulher num país que mal começava a existir em sua época, hoje usaria um meio "mágico" de comunicação à distância para contar a outros que o conheceu e partilha, todas as noites, daquilo que ele viveu nas madrugadas gélidas da Londres de 1660-1669.
Descobri seu diário por acaso em um sebo e eu, que jamais tinha ouvido falar em Samuel Pepys, agora vejo-me envolvida com Lord Sandwich, The King, Ms. Lane, e seus inúmeros amigos.
Agora, tento imitá-lo anotando meus gastos, controlando despesas, fazendo balanço de dívidas e promessas a mim mesma de aumentar minha "fortuna" (fortuna = dinheiro em mãos, porque se há algo que jamais terei é dinheiro guardado em abundância...).
Seus diários começaram a ser publicados na década de 70, e o livrinho que leio é uma compilação de "melhores momentos". Com sua sede por livros, Pepys completou pouco antes de morrer sua meta de ter 3.000 livros em sua biblioteca particular. Que foi parar no Magdalene College, em Cambridge, intocada por muitos anos e ainda nas estantes originais até hoje.
Pepys só há em inglês, infelizmente, mas descobri seu diário na Internet, em
http://www.pepysdiary.com/. Eu ainda prefiro ler o livro em papel, mas quem se interessa por outras eras, outras culturas, outros hábitos (como a dama que visita Pepys fazer cocô em uma bolsinha sob o vestido e ser flagrada pelo dono da casa ao perceber o rubor nas faces da visitante), e quer "ouvir" relatos em primeira mão sobre fatos históricos (como o Grande Incêndio de Londres e a Peste), o diário de Pepys é um prato cheio.
Divirtam-se.

26.12.05


O que fazes, quando um cãozinho te ama, mas precisas deixá-lo?
O que fazes, se amas uma cadelinha vira-lata chamada Docinho, mas não podes levá-la para um apartamento quando te mudas?
O que fazes, quando perdes um gato que amavas na mudança, mas ainda te sentes conformada, porque pelo menos deste a cadelinha linda para tua mãe, que promete cuidá-la?
O que fazes, quando no dia de Natal beijas tua cachorrinha feliz, que te ama, ama, ama, e parece rir de alegria quando te vê, e tu a abraças como se a um ser humano terno, quentinho e carinhoso...
Apenas para no dia seguinte ao Natal ganhares a notícia de que tua mãe deu a cadelinha para estranhos?
O que fazes, quando perdes, perdes, perdes, ainda que sejam apenas bichinhos?
O que fazes, se não consegues te consolar com palavras como "mas são só bichos, não são gente"?
O que fazes, se teu coração dói por bichinhos como se por gente?
O que fazes, quando amas tua mãe, mas sabes que nunca a perdoarás por contabilizares mais uma perda em tua vida porque ela te traiu?